
Não nos víamos há um ano. Não me lembro bem, mas acho que nos perdemos em um dos vendavais. Não tive notícias, mas também não procurei saber. Estendia as roupas no varal quando ele reapareceu, pouco mudado, com um cheiro de lavanda e barba por fazer. Entre, eu disse. Ele entrou. Bati com a almofada no sofá para tirar o pó e fingir uma certa preocupação. Ele sentou. Ofereci água com açúcar e bolinhos de licor. Cruzei as pernas, acendi o cigarro e o ouvi contar as histórias esquecidas de condes distantes que ele fez questão de pesquisar. Não consegui prestar muita atenção. O céu escurecia rápido e me preocupava com meus poucos braços para o tanto de roupa a segurar. Liguei a TV. Vou tomar um banho, eu disse. Ele me seguiu. Pediu para ver. Não, eu não podia, era demais pra mim. Mas ele só queria ver. Encostado com a cabeça na porta ele aguardava enquanto eu me despia e reclamava da água quente do chuveiro. Em poucos instantes, os olhos dele estavam mais molhados que os meus. Como eu senti sua falta, ele disse, como dizem aqueles que realmente amaram alguém. Fiquei constrangida. Tinha engordado um bocado nesse tempo, levado alguns tombos, não condizia muito com a cena que ele queria inventar. Ele tentou se aproximar, mas fui rápida o suficiente para me enrolar na toalha e tirá-lo de lá. Com a porta trancada, me olhei no espelho. Quando foi que eu me perdi? Saí algum tempo depois, mas ele não estava mais lá. Deve ter ido com o outro vendaval. Vai chover, eu pensei. E corri para salvar as roupas no varal.





















