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17 de ago. de 2009

Você me parecia tão bem

Ela sabia que a sobriedade lhe traria dias sem sol com zumbido na TV.

Há anos ela sobreviveu aos clichês e até que suportou bem as dores, disfarçando na sala de estar.

Ela parecia caber tão bem dentro dele, só que ela nunca esteve lá.

Sentada na varanda que separa a água das cores, gritou. Viu sua vida rasgando os sonhos que construiu nos botequins. Seria bom nunca estar consciente demais.

E ela viu que tudo o que tinha eram as sobras do tempo de seus dias menos felizes. Ele deixava pra ela as muitas coisas de pouco valor que já não queria mais. Ela desenhava uma beleza com sangue nessa história que nunca quis se firmar.

E despertou como as moças maquiadas das novelas. Uma serenidade fingida, sofrida, vigiada. Era tudo uma brincadeira para saber quem se machucava mais.

Ela ganhou.

3 de abr. de 2009

É o futurismo, menina


- Ele quer te comer!
E eu pensei: que bom! Imagina sair com um cara que não quer te comer, que fracasso.
As pessoas complicam as relações e depois jogam a culpa no outro. Não é do outro. É desse tipo de coisa. Fica todo mundo vivendo em 1920 com roupinha de show do Radiohead e depois se acha no direito de se fazer de vítima. Perde um tempão fazendo joguinho, querendo ter o controle da situação, quando, na verdade, está morrendo de medo de viver. Todo dia de manhã, ao andar cantarolando rumo ao trabalho dos meus sonhos, eu olho aquela fila de gente engessada e penso o quanto deve ser chato existir só para respirar.

25 de mar. de 2009

Pequenas histórias


Para ler ouvindo Family Tree, do Belle and Sebastian.

::Quando fui ao show do Sonny Rollins com umas amigas, no Ibirapuera, conheci dois japoneses de verdade. Eu nunca tinha conhecido um japonês de verdade, só filhos de japoneses de verdade, então fiquei bastante curiosa. O que me chamou atenção foi que eles eram lindos e usavam roupas muito diferentes. Um deles carregava um instrumento e sentou em cima da caixa para ver o show. O outro veio em nossa direção e nos perguntou, em um português quase japonês, onde havíamos comprado cerveja. Explicamos e ele ficou com cara de paisagem. Não entendi muito bem aquele silêncio e fiquei sem graça. Ele se sentou na caixa com o outro moço bonito e lá ficou por uma meia hora. De repente, olharam pra trás quase que ao mesmo tempo. Talvez tenham combinado. Morri de alegria. Acenaram e foram embora. Morri de tristeza::

::Eu fiz apenas uma declaração de amor em toda a minha vida. Dessas de filme, digo. A princípio eu não ia fazer porque tinha vergonha, mas depois eu pensei bem e me dei conta de que tudo o que eu mais queria na vida era que ele soubesse que eu sempre estaria por perto. Eu era uma ótima observadora. Não fazia barulho, não chamava atenção, não pedia nada em troca. E ele poderia estar no pior dia da sua vida, onde tudo deu errado, que ainda assim eu estaria lá. Gravei um CD com 11 músicas que contavam, de forma linear, a nossa história. Desde quando me apaixonei até quando me lasquei. Fiz um encarte à mão, colocando as letras de todas as músicas em um papel que virava uma dobradura. Fechado parecia um livrinho. O título era algo como “Das canções que eu quis fazer pra você, mas fizeram antes de mim”. Mais ou menos isso. Foi lindo. Todo mundo deveria declarar seu amor. Parece que nasce um monte de estrelinhas dentro da gente::

::Quando eu era pequena gostava de visitar meu avô e acompanhá-lo ao Bar do Mané. Os seus amigos de bar me chamavam de neta do Antonio e me davam balas coloridas. Um dia ele não quis me levar e eu questionei, indignada. Ele disse que não podia porque ia namorar. Chorei o dia inteiro. Minha avó me consolava falando que era mentira, que ela era a namorada dele pra sempre, mas eu não me conformava. Foi a primeira desilusão da minha vida::

::Aliás, quando criança eu andava com uma saia na cabeça porque queria ter o cabelo comprido e minha mãe não deixava::

::Eu tenho uma amiga que namorou o mesmo cara que eu, coisa de seis meses depois do meu rompimento. Ele era escritor e a gente foi meio que abduzida pelo papo dele, todo sedutor. Mas eles também não deram certo e tudo voltou a ser como era antes. Um belo dia fomos, eu e ela, a uma livraria. Vimos um livro interessantíssimo sobre como conquistar os homens e deixá-los completamente apaixonados. Estávamos superentretidas folheando este livro tão rico e espetacular quando demos de cara com nosso ex, mega intelectual, plantado na nossa frente::

5 de fev. de 2009

Mulheres

Você precisa entender que mulher não é livro, enigma, mistério, problema matemático, sonho psicanalítico, arquétipo junguiano ou mapa astral. Mulher não se interpreta. Mulher não se resolve. Mulher não se lê. Freud, Sherlock Holmes, Fermat e Harold Bloom não explicam. Se quiser saber, a última coisa que você deve fazer é tentar entender, adivinhar, solucionar ou perguntar. Talvez ela mesmo não saiba. Talvez ela fale algo que não é bem certo. Elas não mentem, só alternam verdades (é por isso que com mulher se dança).

Gustavo Gitti aqui.